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Blogs Murilo Reis Professor, mestre em Estudos Literários pela Unesp e autor do livro de contos "Identidades secretas"
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Livros, espelhos e dízimas periódicas

"No banco de uma praça ou no ônibus a caminho do trabalho, é possível viajar por capítulos com poucos cliques, operação idêntica à troca insone de canais de televisão via controle remoto. Para pessoas que, inquietas, perambulam por um leque de obras variadas, a pergunta “qual livro você está lendo?” não serve"
Postado em: 05/07/2022 às 08:03
Autor: Murilo Reis

Certa vez, Ricardo Piglia recebeu de seus alunos de doutorado um presente. Depois de abrir o pacote, o escritor argentino viu a tela luminosa e retangular de um Kindle. Com olhar de curiosidade, Piglia se referiu ao dispositivo da Amazon como uma máquina de ler. Quem relata essa passagem é Pedro Meira Monteiro no artigo “Cenas de leitura”.

O pequeno e-reader é a compactação das imensas bibliotecas que Piglia descreve em seus ensaios, lugares que abrigam viciados em leitura. Em “O que é um leitor?”, ele menciona o espectro borgeano que lê vários livros ao mesmo tempo e, imerso entre estantes que contêm milhares de volumes, abre dezenas de títulos, pulando de uma edição para outra. Busca citações, referências, linhas narrativas que nunca se complementam.

As listas virtuais do Kindle permitem algo parecido. No banco de uma praça ou no ônibus a caminho do trabalho, é possível viajar por capítulos com poucos cliques, operação idêntica à troca insone de canais de televisão via controle remoto. Para pessoas que, inquietas, perambulam por um leque de obras variadas, a pergunta “qual livro você está lendo?” não serve. A resposta “acho que estou lendo uns dez” soa absurda. Difícil explicar a decisão de empreender leituras incompletas que vão de críticas de cinema a manuscritos sobre o sonho. Ainda mais complexa é a tarefa de provar que manuais técnicos podem se conectar, por exemplo, com romances policiais.

O conto “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, de Borges, é um tratado sobre essas pontes literárias. Ali, dois leitores encontram, dentro de uma enciclopédia, o registro de um país que não está no mapa e que, ainda assim, possui todo um sistema cultural. Trata-se de uma anomalia que a investigação da dupla de curiosos não soluciona. Pode ter sido tanto um gracejo quanto uma emboscada aquela semente de ficção instalada num catálogo científico.

Em outro momento da mesma história, o amigo do narrador sublinha o caráter amaldiçoado dos espelhos, que, segundo ele, multiplicam seres humanos. A literatura também prolifera imagens e universos. A nação imaginária que aquela enciclopédia abriga é exemplo disso.

Quando o sujeito se embrenha em muitas leituras, anda entre fileiras de espelhos diagonais, posicionados um à frente do outro. Passando por esses labirintos, vislumbra universos que se refletem e se expandem como dízimas periódicas. Ao olhar para o Kindle que seus alunos lhe trouxeram, Ricardo Piglia talvez tenha visto veredas múltiplas por trás daquele retângulo opaco e iluminado.

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