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Blogs Murilo Reis Professor, mestre em Estudos Literários pela Unesp e autor do livro de contos "Identidades secretas"
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Machado de Assis e os leitores da Indonésia

“Em Memórias póstumas de Brás Cubas, romance de 1880, o narrador protagonista dá uma bronca danada em nós, leitores: 'o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar';"
Postado em: 25/11/2020 às 16:29
Autor: Murilo Reis
Machado de Assis e os leitores da Indonésia

Professora de inglês, uma amiga comentou sobre a época em que deu aulas para um pessoal da Indonésia. Segundo ela, eles achavam absurdo nosso hábito de ler jornal todos os dias. Qual o sentido de consumir fatos novos se os velhos ainda não foram assimilados?

Sou assinante da revista Piauí há um bom tempo. É complicado assumir-se fã de um veículo da imprensa, mas a considero um dos melhores periódicos que temos por aqui. A linguagem das reportagens dialoga com o conceito de jornalismo literário, e a edição é primorosa. Esses aspectos despertam nossa vontade de colecioná-la.

Contudo, a extensão dos artigos torna humanamente impossível percorrer todas as matérias em trinta dias. Para que isso ocorra, é necessário que o sujeito não tenha mais nenhum compromisso. Seria uma espécie de nova profissão: o leitor de revista Piauí. Se aqueles alunos indonésios da minha amiga souberem que há pessoas que acumulam revistas sem lê-las, acho provável que surtem de indignação.

Tati Bernardi cultiva uma coluna chamada “É coisa fina”, na Folha de S. Paulo. Ela recomenda livros de mais ou menos duzentas páginas, obras que podem ser apreciadas no espaço de uma semana por pessoas que dizem não ter tempo para ler. Outro dia, Bernardi indicou “O alienista”, conto machadiano que pode ser decifrado em duas sentadas e também refletiu sobre o prazer que é devorar o texto apurado do autor de Dom Casmurro.

O Bruxo do Cosme Velho sabe das coisas. Em Memórias póstumas de Brás Cubas, romance de 1880, o narrador protagonista dá uma bronca danada em nós, leitores: “o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...”.

Fico imaginando o que ele diria hoje, quando, com pressa de envelhecer, não damos conta de um simples número da Piauí. Certamente, consideraria aqueles rapazes da Indonésia os seus leitores ideais.

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