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Blogs Murilo Reis Professor, mestre em Estudos Literários pela Unesp e autor do livro de contos "Identidades secretas"
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Um fio desencapado

"[...] filas quilométricas à espera de combustível superam a criatividade de George Miller em Mad Max."
Postado em: 30/05/2018 às 09:45
Autor: Murilo Reis
Um fio desencapado
Foto: Ari Campos

No texto “Hotel Almagro” – presente no livro Formas breves –, o escritor argentino Ricardo Piglia fala sobre o período em que morou num hotel (como o próprio título diz). Segundo ele, viver nesse tipo de lugar é a melhor maneira de não cair na ilusão de “ter uma vida”: convive-se apenas com os rastros deixados por outros hóspedes.

Em “Amor”, conto de Clarice Lispector, Ana vive a regrada vida de alguém que pertence à pequena burguesia carioca da década de 50. Ela sabe até mesmo o momento em que os móveis da casa ficarão empoeirados no decorrer do dia. Tem tudo sob controle. Ou pelo menos era o que ela pensava. Certo dia, voltando para casa, vê uma imagem que a acerta como um tiro de calibre 12: um cego mascando chiclete. Um ser humano que, em meio à movimentada rotina do Rio de Janeiro, masca chiclete no escuro. A partir daí, Ana percebe que sua bem estruturada rotina não passa de mero acaso, que tudo pode ser destruído tão facilmente quanto os ovos que estavam dentro da sua sacola de compras e se espatifaram no chão.

Ao ler as palavras de Piglia e Clarice, percebemos o quão frágil parece a frase “ter uma vida” e o quão absurdo é acreditar que exercemos algum tipo de controle sobre ela.

Clarice escreve sobre uma personagem específica, localizada em um contexto histórico específico. Porém, como toda obra de arte, “Amor” é atemporal. A narradora fala de Ana, mas também aponta o dedo para a cara do leitor de qualquer época.

Sempre tendemos a achar que uma rotina equilibrada depende apenas de nossa própria organização. Bobagem pura. Basta que os representantes de uma profissão pouco valorizada em nosso país paralisem suas atividades (independente de quem esteja ou não articulando esse movimento), para que entremos em pânico e deixemos de lado o pouco de lucidez que nos resta – filas quilométricas à espera de combustível superam a criatividade de George Miller em Mad Max.

A crise gerada pelos caminhoneiros serve para mostrar (pelo menos para nós, meros mortais) que não adianta esperar que o dia termine conforme planejamos. Assim como escrevem Clarice e Piglia, seguir uma rotina é um fio desencapado e é ilusão dizer que temos uma vida para chamar de nossa.

O melhor, talvez, seja ir morar num hotel.

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