agora, no ar:
...
...
  
agora, no ar:
...
...
  
agora, no ar:
...
...
Blogs Luís Antonio Jornalista e Sociólogo, Luís Antonio integra a equipe do Jornal da Morada, da Rádio Morada do Sol de Araraquara. É formado em Ciências Sociais pela Unesp/Araraquara

Uma condenação injusta

O Judiciário se esforça na tentativa de pôr ordem na casa, mas não escapa da perniciosa proximidade com a política e o poder. “Um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo”, nas palavras do senador Romero Jucá.
Postado em: 25/01/2018 às 18:19
Autor: Luís Antonio
Uma condenação injusta

As instituições brasileiras convulsionaram. Os poderes Legislativo e Executivo perderam a legitimidade em meio ao mar de lama da corrupção e a busca desenfreada pelo poder. Os partidos políticos, que atingem o número absurdo de quase 40 siglas oficiais, digladiaram-se no fatiamento do estado brasileiro e na relação promíscua com o alto empresariado que financiava as caras campanhas eleitorais.

O Judiciário se esforça na tentativa de pôr ordem na casa, mas não escapa da perniciosa proximidade com a política e o poder. “Um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo”, do senador Romero Jucá.

Em meio a tudo isso, o Brasil assiste a uma das mais absurdas condenações de sua história recente. Entre quem aplaude e quem reclama, agoniza a jovem e fragilizada democracia brasileira. Se o teor da ação fere os princípios da razoabilidade, a dosimetria da pena extrapola qualquer compreensão. Pois, então, vejamos.

O injustiçado a quem faço referência é o jornalista Zeca Camargo, que acaba de ser condenado ao pagamento de R$ 60 mil de indenização por danos morais à família do falecido cantor Cristiano Araújo. Em 2015, quando um acidente de carro tirou a vida do sertanejo, Camargo  narrou uma crônica no “Jornal das Dez” da Globo News questionando a popularidade do novo ídolo. “Muita gente estranhou a comoção nacional diante da morte trágica e repentina do cantor Cristiano Araújo. A surpresa maior, porém, é o fato de ele ser ao mesmo tempo tão famoso e tão desconhecido. O que realmente surpreende nesse evento triste da semana foi a comoção nacional. De uma hora para outra, (…) fãs e pessoas que não faziam ideia de quem era Cristiano Araújo, partiram para um abraço coletivo, como se todos nós estivéssemos desejando alguma catarse assim, algo maior que nos uníssemos pela emoção”, disse ele na ocasião.

O texto não é nem um pouco ofensivo à memória do cantor, nem à família ilutada. Aliás, lido hoje à distância, confirma-se que a fama de Araújo não resistiu à história. Cássia Eller, Renato Russo, Cazuza e outros tantos artistas não  tiveram seu lugar preenchido. Até mesmo sertanejos como Leandro (da dupla Leandro e Leonardo) ou o João Paulo (antigo parceiro de Daniel) são celebrados como relevantes no gênero. Cristiano Araújo já foi substituído pelo ídolo da vez.

Por isso, a condenação é absurda. Fere de morte a liberdade de expressão e ameaça a democracia. O processo movido contra o jornalista global soma-se a outros tantos, como o movido pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, contra Mônica Iozzi, ou mesmo a condenação em primeira instância imposta ao jornalista José Carlos Magdalena, de Araraquara, após ação movida pelos 18 vereadores da Câmara Municipal de Araraquara, que não receberam bem as críticas emitidas no Jornal da Morada.   

Os sinais estão aí. A fragilidade das instituições, pelos motivos elencados acima, e a anestesia geral da população indicam que tempos bicudos se avizinham. Nem tudo está perdido, mas é preciso resistência. Perdoe-me quem se entusiasma pela força das redes sociais, mas ultimamente, como profetizou Umberto Eco, elas apenas têm dado voz a uma legião de imbecis – ainda que se aponte boas experiências nessa esfera. A sociedade precisa de uma imprensa livre e atuante. Livre, democrática e atuante.

O cinema tem produzido boas reflexões sobre esse tema. “Spotlight – Segredos Revelados”, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2016, e o recém-lançado “The Post – A Guerra Secreta”, de Steven Spielberg, que estreia nos cinemas por esses dias, são exemplos que mostram o papel imprescindível que só o jornalismo é capaz de desempenhar.

Relacionadas

Luís Antonio
Acabou a paz do paladino
12/01/2018 às 17:31
Luís Antonio
As cuecas do prefeito
22/12/2017 às 15:27
Luís Antonio
Já vi político ser tocado da sacristia
31/10/2017 às 17:37

Blogs e colunas

Luís Antonio
Luís Antonio
Uma condenação injusta
25/01/2018
Murilo  Reis
Murilo Reis
Suor, tropicões e boas resenhas
08/02/2018
Maria Isabel  Escarmin
Maria Isabel Escarmin
Uma nota sobre a solidão
02/10/2017
Paulo  Tetti
Paulo Tetti
Militância LGBT
24/11/2017
Guilherme  Quintão
Guilherme Quintão
Petistas, tucanos e o fator Bolsonaro
28/11/2017
Cristiane Tarcinalli  Moretto Raquieli
Cristiane Tarcinalli Moretto Raquieli
Apoiar, acolher e integrar
18/07/2017
Adalberto Cunha
Adalberto Cunha
O uso do plástico na sociedade atual
22/12/2017
Vaine Luiz Barreira
Vaine Luiz Barreira
Meltdown e Spectre
08/01/2018
Rodrigo Viana
Rodrigo Viana
Até onde chega a Ferroviária?
26/01/2018